Enquanto o Café Esfria,  A sorte que eu achava ter

A sorte que eu achava ter – Último Capítulo

José foi, mais uma vez, conversar com Maria. Assim que chegou em casa, ouviu a voz dela:
— E então, José? Encontrou a sorte do João? Falou com ela?

Ele suspirou, tirou o chapéu e respondeu:
— Ainda não, Maria. O João disse que, como demorei para dar a resposta, agora só quer me pagar dois contos de réis.
Maria cruzou os braços, desconfiada.
— E você aceitou?
— Ainda não. Vim conversar primeiro com você.

Maria arregalou os olhos, indignada.
— José, o que passa nessa sua cabeça? Desse jeito, ele vai acabar querendo te pagar só um conto de réis!

José coçou a cabeça, soltou um longo suspiro e ficou alguns instantes em silêncio.
— Você tem razão.

Sem dizer mais nada, virou-se e seguiu de volta para a fazenda de João.

Ao chegar, nem esperou pelo café.
— Tudo bem, João. Eu vou até essa sua tal sorte. Só me diga como faço para chegar até ela.
João sorriu.

— Digo, sim. Mas agora só vale um conto de réis.
— Mas você... — José balançou a cabeça, vencido. — Está certo. Não vou mais conversar com a Maria. Agora me diga, amigo, como é que se chega lá.

João se aproximou, abaixou o tom de voz e explicou o caminho com riqueza de detalhes, como se estivesse revelando um segredo guardado havia muitos anos. Quando terminou, deu dois tapinhas nas costas de José.
— Boa sorte, companheiro. Vai precisar.

Sem dizer mais uma palavra, José agradeceu com um aceno e partiu estrada afora.

Chegando ao local indicado, José ficou maravilhado. Diante dele havia uma casa imponente, com janelas amplas e um jardim florido. Da porta surgiu uma mulher deslumbrante, bem vestida, adornada com joias que reluziam ao sol e com um olhar tão firme quanto gentil. José ficou paralisado, encantado com tamanha beleza.

— Aproxime-se, José. O que o traz por aqui?
— Como... Como a senhora sabe quem eu sou? Nem cheguei a me apresentar.

Ela sorriu com a leveza.
— Então você acredita que eu não o conheço?

José engoliu em seco.
— Agora tenho certeza de que sim. Meu amigo João me pediu para vir até a senhora. Disse que não precisa de mais nada, que tudo o que tem já é o suficiente.

Mais uma vez, a sorte sorriu.
— José, eu já sabia o recado que você traria. E lamento que tenha feito essa viagem à toa. Mas João..., João não tem escolha. Por mais que insista em recusar, a sorte o escolheu e o acompanhará por toda a vida, queira ele ou não.

— Entendi... — disse José, olhando nos olhos dela. — Já que estou aqui, será que a senhora poderia me levar até a minha sorte?

A mulher sorriu com ternura, como quem já esperava por aquele pedido.
— Claro, José.

Os dois caminharam por alguns minutos, até que ela parou diante de uma casa escondida entre árvores tortas.
— Aqui está a sua sorte, José.
Ele arregalou os olhos, incrédulo. A casa era velha, de madeira rachada, com o telhado torto e uma cerca caída, tomada pelo mato. No instante seguinte, a porta rangeu e dela saiu uma senhora curvada, com roupas gastas, um lenço desbotado na cabeça, os pés descalços cobertos de poeira e uma remela grudada em um dos olhos.

José deu um passo para trás.
— Você... Você é a minha sorte?

A senhora sorriu. Tinha um dente a menos, mas seus olhos brilhavam como os de quem já havia visto de tudo nesta vida.
— Sim, José. Sou eu.

José permaneceu em silêncio. Olhava para aquela senhora sem conseguir entender a decepção. Durante todo o caminho, imaginou encontrar alguém parecido com a sorte de João. Bonita, elegante, cercada de riqueza. Mas, diante dele, estava uma velha cansada, de aparência simples e descuidada.

A senhora pareceu ler seus pensamentos. Deu uma risadinha discreta e balançou a cabeça.
— Sabia que você ganhou aquele um conto de réis porque eu cochilei?

José franziu a testa.
— Como assim?

A velha apoiou as duas mãos na bengala, sorriu outra vez e respondeu:

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