Enquanto o Café Esfria,  A sorte que eu achava ter

A sorte que eu achava ter – Capítulo 3

No caminho de volta, José sentia o vento bater no rosto e os pensamentos embaralhados. A proposta de João era, no mínimo, inusitada. Ir até a sorte dele, dizer que ela podia ir embora... e, ainda por cima, ganhar três contos de réis por isso.

Ao chegar em casa, Maria o esperava na porta, como sempre fazia. A luz do lampião iluminava seu rosto sereno.

— O que foi, José? Está com cara de quem viu assombração.

Ele sorriu e respondeu:

— Pior que não, Maria. O João me fez uma proposta. E das grandes.

José coçou a cabeça, meio sem jeito, e respondeu:

— Pois bem, Maria... O João quer me pagar três contos de réis para que eu vá até a sorte dele e diga que ele não precisa mais de nada. Que tudo o que tem já é o suficiente.

Maria não conteve o riso e soltou uma gargalhada leve.

— Olha... Não sei se essa tal sorte existe ou não. Mas sei que o João não é homem de contar mentira. Agora, o que eu não entendo é por que você não aceitou logo essa proposta e foi.

Maria já continuou:

— Está vendo? Ficou pensando demais. Aposto que, agora, ele vai lhe pagar só dois contos de réis.

Ela se aproximou, ajeitou a gola da camisa do marido e disse:

— Volte lá, José, e diga que aceita. Vai que, no fim das contas, essa tal sorte esteja esperando justamente por você.

Como já era tarde, José decidiu ir dormir. Mas sua cabeça não parava um só instante de pensar naquele assunto. A proposta de João parecia simples, até engraçada, mas carregava um peso que ele ainda não conseguia compreender por completo.

Virou de um lado para o outro na cama, enquanto Maria, já adormecida ao seu lado, respirava tranquilamente. Ele, no entanto, permanecia inquieto.

Logo que amanheceu, José levantou-se devagar para não acordar Maria. Lavou o rosto, tomou uma xícara de café forte e, sem pensar muito, pegou o chapéu, calçou as botas e partiu rumo à casa de João.

O céu ainda conservava o tom azulado do começo da manhã, e a estrada de terra permanecia úmida pelo sereno da madrugada. Cada passo carregava uma mistura de dúvida e decisão.

Ao chegar à fazenda, José avistou o amigo na varanda. João era daqueles que, como se dizia por aquelas bandas, acordava no primeiro canto do galo, antes mesmo de o sol espreguiçar no céu.

— Bom dia, José! — disse João, com um sorriso no rosto. — Veio para levar o recado à minha sorte?

— Vim. E, antes que você mude de ideia, é melhor me contar direitinho o que quer que eu diga a ela.

— Como eu já tinha dito antes — falou João, com aquele jeito calmo de quem já havia decidido tudo por dentro —, quero apenas que você diga a ela que não preciso mais de nada.

Fez uma pausa, tomou um gole de café e completou, com um olhar travesso:

— Porém, meu amigo... Como você demorou para me responder, agora só posso lhe pagar dois contos de réis.
José arregalou os olhos, levando a mão ao peito, como se tivesse acabado de ouvir um grande absurdo.

— Mas, João! Que conversa é essa? Ontem eram três contos de réis!

— Ontem era ontem. Hoje já é outro dia.

José balançou a cabeça e disse:

— Dois contos de réis... Sei não, meu amigo. Acho melhor conversar com Maria antes de aceitar esse negócio.

João riu outra vez, como quem já esperava exatamente aquela resposta.

— Faça isso. Vá conversar com Maria e volte aqui com a sua resposta.
Continua >>>

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