José ainda parecia intrigado com aquela ideia. Depois de alguns segundos em silêncio, voltou a perguntar:
— Por três contos de réis você quer que eu vá até a sua sorte e diga que você não precisa mais de nada? — José arregalou os olhos e balançou a cabeça. — Você ficou doido, meu amigo?
João riu. Era uma risada leve, de quem carregava paz por dentro.
— Como eu já disse, hoje não preciso conquistar mais nada. Tudo o que tenho já é suficiente para o resto da minha vida.
José tomou mais um gole de café, olhou para o horizonte e permaneceu alguns instantes em silêncio, como quem mastiga as palavras antes de responder.
— Mas e se a sua sorte for embora, João? E se ela levar consigo tudo o que você tem?
João respondeu sem pressa, como quem já havia refletido muito sobre aquilo.
— Ora, José... Se ela for embora, é porque nunca foi minha de verdade. E sorte que vai embora não faz falta. Sorte de verdade é aquela que permanece, mesmo quando todo o resto se vai.
— Então você quer que eu acredite — disse José, meio desconfiado — que, mesmo que essa prosa de sorte seja verdade, você vai abrir mão de toda a sorte que vem tendo só porque acha que não precisa mais de nada? É isso mesmo?
João assentiu com calma, com aquele olhar de quem já havia vivido o suficiente para entender o valor das coisas simples.
— Sim, meu amigo. É exatamente isso. Mas deixe de conversa e me diga logo: aceita a minha proposta ou não?
José coçou a cabeça, riu sem graça e olhou para o chão, como quem tentasse encontrar a resposta nas frestas da varanda.
— Três contos de réis, hein... — murmurou. — Só para ir conversar com a tal da sorte?
João cruzou as pernas, recostou-se na cadeira de balanço e completou, meio sério, meio brincando:
— Não precisa convencê-la, não. Só diga que eu agradeço por tudo, mas que agora ela pode descansar. Que eu não preciso de mais nada.
— Tudo bem — disse José, enfim, ajeitando-se na cadeira como quem aceitava entrar numa conversa séria. — Vamos supor que tudo isso seja verdade... O que é que eu faço para encontrar essa tal sorte?
João sorriu de canto, olhou para o céu, que já começava a mudar de cor com o fim da tarde, e respondeu com a calma de quem sabia que a resposta não era simples.
— Ah, José... Encontrar a sorte não é como achar um endereço no mapa.
José franziu a testa, tentando entender.
— Mas você quer que eu vá até ela. Como vou saber onde ela está?
João olhou para ele e disse:
— Não se preocupe com o caminho. Sei que você chegará até ela.
— Eu até posso ir em busca da sua sorte — disse José, pensativo. — Mas antes, preciso conversar com Maria para saber se ela concorda com esse serviço.
João riu, compreensivo.
— E faz muito bem.
E assim, José se despediu do velho amigo com um aperto de mão firme. Colocou o chapéu na cabeça e desceu lentamente os degraus da varanda, enquanto o sol desaparecia atrás das montanhas, anunciando o fim de mais um dia e o início de uma jornada que mudaria sua vida.