A história começa com dois velhos amigos proseando, daqueles papos bons, sem pressa, que a gente escuta até de olhos fechados. Vamos chamá-los de João e José, nomes simples, comuns naquele tempo, e que já carregam uma certa ternura só de serem pronunciados.
João era daqueles que sempre achavam que tudo dava certo porque tinham sorte. Já José acreditava que a sorte, na verdade, era apenas uma desculpa que as pessoas davam quando não entendiam o que a vida queria lhes ensinar. Foi em uma dessas conversas entre os dois que esta história começou.
Naquele dia, José foi visitar seu velho amigo João. João morava numa linda fazenda, daquelas que pareciam ter tudo o que o dinheiro podia comprar. A casa era grande, os móveis imponentes e o cheiro de café recém-passado tomava conta da varanda. João, como sempre, estava muito bem vestido, com uma camisa engomada, uma calça alinhada e um sorriso que misturava orgulho e hospitalidade. José, mais simples, chegou com o chapéu na mão e cumprimentou o velho amigo.
— Boa tarde, João! Estava passando por aqui e resolvi visitar meu bom e velho amigo — disse José, com um sorriso sincero, tirando o chapéu e enxugando o suor da testa.
— Aproxime-se, José! — respondeu João, abrindo os braços em boas-vindas. — Vamos tomar uma xícara de café. Acabei de passar um café fresquinho. Você sabe que aqui a casa é sua.
José subiu os degraus da varanda devagar, sentindo o calor das tábuas sob os pés. Sentaram-se nas cadeiras de balanço, daquelas que fazem um barulho gostoso ao deslizar sobre o assoalho antigo.
— E então, meu amigo... Como anda a vida? — perguntou João, servindo o café com cuidado, como quem oferece não apenas uma bebida, mas acolhimento.
— A vida anda, meu amigo — respondeu José, soprando o café antes do primeiro gole. — Às vezes faço um trabalho aqui, outro ali... Vou me virando como dá. Mas, olhando para você, João, vejo que a vida continua sendo muito generosa.
João soltou uma risada baixa, daquelas que carregam um misto de orgulho e nostalgia.
— Generosa... É, talvez seja mesmo. Mas vou lhe dizer uma coisa, José: tem gente que chama isso de sorte. Eu mesmo já ouvi isso a vida inteira.
José levantou as sobrancelhas, curioso, e apoiou a xícara no braço da cadeira.
— E você, João? Acredita nisso? Foi tudo sorte?
João olhou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr por trás dos morros.
— Essa é uma boa pergunta. E é aí que entra uma história de que gosto muito.
Fez uma breve pausa, tomou um gole de café e continuou:
— Vamos fazer o seguinte. Eu lhe dou três contos de réis para você ir até a minha sorte e dizer a ela que não preciso mais de nada. Que tudo o que tenho já é o suficiente. Você pode fazer isso?
Caro leitor, contos de réis eram o dinheiro daquela época. Três contos representavam uma verdadeira fortuna, suficiente para comprar uma casa, um pedaço de terra e ainda sobrar dinheiro para um café passado na hora. Só por isso, você já pode imaginar que esta história aconteceu há muito, mas muito tempo mesmo.